Antes que alguma leitora desmaie diante de tanta falta de sensibilidade deste Neanderthal que vos escreve é necessário deixar claro que gosto sim de homenagear a mulher. Na verdade, não tenho a menor dúvida de que os idealizadores da data tiveram as melhores intenções ao adotar o dia 8 de março de 1857 como um marco.
O que não pode deixar de ser comentado é o que aconteceu desde então com esta "boa intenção". Domingo muitos blogs farão textos emocionados sobre a força e a beleza de toda mulher e muitos dirão que devemos dar os parabéns às mulheres que amamos. Algumas vão encontrar flores em suas mesas de trabalho e outras, com certeza, receberão mensagens de gosto duvidoso, daqueles serviços horríveis de telemensagem. "Não há nada de errado nisso, é muito importante oferecermos homenagens e todo o nosso carinho a quem amamos, numa data tão importante, não é?"
Não! Pode até ser que não seja má fé, mas se você é um gerente que parabeniza sua funcionária pelo dia dela e depois oferece aquela promoção ao funcionário menos capacitado, que acompanha com você os jogos do seu time (já vi isso acontecer), você é um hipócrita! Se você parabeniza sua esposa pelo dia dela, mas chega em casa e se esparrama no sofá enquanto ela cumpre sua jornada tripla de trabalho, você é um hipócrita! Se você cumprimenta todas as suas amigas, mas passa o restante do ano tendo o mesmo comportamento machista e sexista de sempre, você é um hipócrita! O homem que não se posiciona de verdade, com sinceridade e desprendimento, frente a questões importantes da feminilidade e da relação entre os sexos deveria ter ao menos a dignidade de não ficar repetindo o clichê de "parabéns pelo seu dia".
"É isso aí! O Dia Internacional da Mulher deve ser mesmo para refletirmos sobre as conquistas da mulher, e para reivindicar nossos direitos, lutar por maiores conquistas!"
Por incrível que pareça, não também! Eu sei, parece estranho que eu seja contra essa comemoração, mesmo que ela seja encarada de forma séria, mas posso explicar. O problema? Datas assim limitam essa reflexão. Salvo exceções, a reflexão que poderia levar à mudança fica restrita a um dia pré-determinado, fica encaixotada. Todas as reivindicações são feitas com maior intensidade na data estipulada, existem os discursos e discussões, mas no dia 9 de março as mulheres continuam sujeitas a jornadas triplas de trabalho; continuam trabalhando 50% mais que homens, na mesma função, para ganhar 50% menos; continuam objeto de valores ditatoriais (da beleza, por exemplo); continuam vítimas de violência, sofrendo todo tipo de intimidação.
Sinceramente, o dia internacional da mulher, tal qual é hoje, é irrelevante e desnecessário. As necessidades das mulheres, de igualdade e dignidade, além das econômicas, são muito maiores do que uma data pode comportar, e de nada adianta discutirmos isso amanhã e ficarmos anestesiados até o próximo mês de março. Se for para citar Lennon, prefiro dizer que infelizmente a mulher continua sendo “the nigger of the world”, e que para mudar isso precisamos de menos simbolismo e mais ação.
Fonte: Marcos Donizette.
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